domingo, 22 de abril de 2007

Fiquei com vergonha


Enquanto isso... lemos no suplemento Megazine, do O Globo, dessa semana (17/04/07): duas páginas falando de como os indígenas estão utilizando a internet, tanto para se comunicarem, divulgarem sua cultura, como para aprenderem espanhol, por exemplo; mostrando como homens e mulheres podem se beneficiar da tecnologia dos computadores, nos lembrando a idéia primordial de que toda tecnologia é criada para servir ao ser humano.

Em seguida, somos nocauteados, com uma reportagem que conta como alguns colégios particulares aqui do Rio estão preparando os meninos e meninas do Ensino Fundamental para o Vestibular!!!! Com testes simulados aos sábados, para já irem treinando... desde a quinta série!

É a instituição escolar torturando cada vez mais cedo!

O que é isso, professores???

Como é que pessoas teoricamente preparadas para lidar com crianças e jovens nas escolas conseguem defender essa idéia? O que está acontecendo? Perdemos completamente a razão?

Estamos esquecidos do nosso papel de educadores? O papel da escola se resume a isso? Preparar para o vestibular? Quer dizer que o certo, que a coisa boa a se fazer é adestrar nossos jovens cada vez mais cedo?

Ou seja, ao invés de combatermos um sistema que é injusto, incoerente e massacrante, nós o fortalecemos, com a desculpa de que estamos preparando os jovens.

Não acredito que professores comprometidos com o exercício da cidadania de seus alunos, preocupados com a formação de pessoas de bom caráter, interessados em construir conhecimento e a autonomia com esses jovens concordem com esse esquema de trabalho.

Que equívoco, professores, que equívoco!

Será que nem os resultados do ENEM fazem os professores perceberem que esse esquema não dá certo? O ENEM pressupõe que os alunos estejam aprendendo a pensar, articulando conhecimentos de áreas variadas e que saibam criar argumentos para defender suas idéias através da linguagem escrita.

A UERJ e a UFRJ – cada uma a seu modo - também esperam alunos pensantes, que escrevam com desenvoltura, e não alunos que decorem esquemas e técnicas.

E o que se faz é tentar enquadrar isso num modelito que sirva para todos, criando turmas especialmente adestradas para responder questões supostamente pré-formatadas.

E, por favor, não me venham com a história de que estamos atendendo os anseios dos pais ou que estamos preparando para o futuro.

Escola não é curso preparatório! Escola não é lugar para manutenção e confirmação do que não é bom. Escola não pode ser excludente.

Nós, educadores, somos responsáveis pelo debate e pelo esclarecimento pedagógico do que deve ser feito na escola. E escola é lugar de formar gente em suas potencialidades e diferenças.

Escola é lugar de compreender e aprender para o mundo que estamos vivendo agora, e não para um futuro que sequer sabemos qual será.

Escola é lugar de se pensar alternativas para melhorarmos o que não está bom, de se aprender a lutar pelo bem estar coletivo.

Escola é lugar de formamos pessoas para respeitarem-se umas às outras, para serem solidárias, justas e dignas.

Escola é lugar de ampliar e produzir conhecimentos.

Escola é lugar de transformação.

E se a sociedade está do jeitinho que está, cheia de gente “sabida e esperta, que só sabe levar vantagem em tudo”, é porque temos formado gerações e gerações, sem nos preocuparmos com as transformações necessárias, preocupados que somos com a manutenção de uma coletividade perversa, que já se mostrou suficientemente incapaz de acolher os verdadeiros valores da vida humana.

Os grandes pensadores-educadores desse país, que pensaram uma escola que dignificasse o ser humano, como Paulo Freire e Darcy Ribeiro, devem estar revirando no túmulo.

Se os colegas não considerarem nada disso como relevante, que pensem em suas vidas de estudantes e lembrem-se da tortura das “semanas de provas”, da angústia e da ansiedade que elas causavam e, pelo menos, reflitam sobre os motivos de estarmos até hoje reproduzindo essa situação e, pior, antecipando nas vidas de nossos alunos esses momentos doentios.

Convenhamos, isso não faz bem a ninguém.

Cadê os educadores dessa cidade? Por favor, apresentem-se, pra eu não morrer de vergonha.





sexta-feira, 30 de março de 2007

Inclusão Digital e ensino instrumental

Pensando essa coisa da inclusão digital e o ensino de língua estrangeira...Uma das primeiras coisas que ensinamos em inglês para uma compreensão instrumental são as noções de skimming e scanning. Skim é o que se faz quando se retira a nata do leite. Ler skimming é buscar fatos concretos - nata - a data do nascimento de alguém, nomes, idades, etc. Ler scanning tem a ver com o equipamento do computador ( transforma todo o texto em uma figura digitalizada - é ler em geral, digamos assim).
Estava dando aula para nosso primeiro ano e apresentando esses conceitos. Chegamos a uma discussão muito interessante : hoje em dia, até mesmo por conta do uso da Internet, estamos em uma era de skimmings. Abro uma janela atrás de uma informação que me leva a um link que me leva a outro etc...sempre tendo como linha aquilo que me será útil naquele momento. Conversamos sobre como é importante esse recurso, sobre como as pessoas com menos prática de Internet ainda não o dominavam, dissemos que isso também era uma forma importante de leitura.E aí, falando de scanning,eis que se chega a uma conclusão: falta scanning na nossa vida. Falta ver o todo, falta nos aproximarmos das coisas sem necessariamente termos uma utilidade pré-concebida para elas ( ao menos não sempre). Curtir a leitura e observar o panorama geral. Ver o contexto...
Bem, aí passamos a falar de pessoas, de como as vezes nós skim as pessoas e não as scan. Não aprofundamos: tiramos dela o que nos parece útil. Realmente gostei da discussão que me levou a pensar sobre inclusão e vida. Incluir é uma atitude, pressupôe aprofundar em algumas coisas, pressupôe construir contextos, interpretações e crenças próprias acerca da sociedade que nos cerca. Para mim a inclusão digital sem essa perspectiva humana é somente imposição de mais uma realidade tecnológica sem base ( como todos os comentários anteriores tem sugerido).
E tem outra coisa: Tenho lido muito acerca de quem é o professor digital - profissional do futuro - que dá mil aulas presenciais e virtuais e está sempre plugado. Acho toda essa imagem muito divertida, mas novamente fugimos do ponto. Se por um lado ainda temos muito o que superar em termos de "nos incluirmos" na era digital, por outro, nada disso vale sem a velha discussão de que professores queremos ser.Toda ferramenta tem seu objetivo e o sentido maior é construção nossa

quinta-feira, 29 de março de 2007

A aula incrível e maravilhosa - usos e conseqüências

Tem sido recorrente em nossas reuniões na escola, em conversas informais e intercâmbios pela lista o tema de que não basta dar uma boa aula, temos que pensar na melhor aula possível - aquela que no título chamei de incrível e maravilhosa. Eu particularmente adoro este tipo de proposição, feita com garra e com paixão. Me encanta em nossa escola a possibilidade de romper limites a todo momento. A cena que me vem a cabeça ( e quem me conhece sabe que comparações com filmes são inevitáveis) é a do professor como um herói, como aquele que sacode a poeira, arma-se de uma lança ( que seria um livro e/ou uma apostila), de coragem e de desenvoltura com o objetivo de que o aluno saia da aula diferente, que tenha processado alguns conteúdos internos ( conteúdos esses que estão além da disciplina em si). Cabe esclarecer ( ainda mais em tempos informáticos) que, para mim, processar não é assimilar ou receber passivamente, e sim dar início a um processo. Dar início a algo que não acaba em 50 minutos ou 1h e 40. Colocar-se em processo, em dinâmica...

Foi essa reflexão que me fez pensar em Duna ( de Frank Herbert) que começa com a seguinte frase: "O princípio é um momento muito delicado". Pena que a gente as vezes só consiga enxergar um tempo linear de antes-e-depois, porque na verdade todos estamos, o tempo todo, processando. Então, a cada aula espero despertar algo, em meio a um despertar que começa antes mesmo da aula começar. Se, na minha aula, desperta um processo que culminará na de química, não há como saber de verdade. Nada é linear. Melhor seria dizer que na minha aula há tantos processos quantos são os interesses e descobertas de cada aluno e isso, bem, isso é muita coisa...

Mas tenho essa sensação de que inícios são mesmo delicados. O início da relação com uma turma, o início de uma nova matéria, o início de um novo teste metodológico, o início do dia de trabalho, o início de uma desconfiança, o início de uma grande alegria. Se o tempo é esse brinquedo em que moramos e que a todo momento subvertemos, não tenho acesso ao processo de nenhum aluno, mas posso acompanha-lo, acarinha-lo e fazer-me presente.

Para mim a aula incrível e maravilhosa não é linear: o que hoje converso com um aluno pode culminar em um projeto daqui a um ano. A aula incrível e maravilhosa pode durar cinco minutos e estar representada por um momento em que todos cantamos ou nos permitimos rir de nós mesmos. Pode ser fora da aula, em uma reunião para resolver um problema sério que só apareceu porque houve uma aula não tão maravilhosa. A aula incrível e maravilhosa pode ser um dia em que todos estamos em sintonia e pode ser, também, tecnicamente maravilhosa ( atualizada, didaticamente correta, envolvente, etc.)

Uma grande amiga um dia me disse quando eu lhe perguntava como poderia envolver mais as pessoas em um projeto, fazer com elas o que foi feito por mim em reciprocidade: "Sabine, como você pode fazer algo que não sabe fazer? Você nesse momento está faznedo o melhor que pode."Eu achei simples e genial. A aula maravilhosa é uma busca e cada aula é maravilhosa desde que não esqueçamos de buscar suas maravilhas e apontar sempre além.Ás vezes é como "Coração Valente" você ter uma lança no estômago e gritar "Liberdadeeee!!!!" e converter um momento ruim. Ás vezes é como uma comédia romântica na qual as dicas de que tudo vai dar certo ficam espalhadas em meio a muitos mal-entedidos.Ás vezes é Roger Waters e um show impressionante. E às vezes, essa aula maravilhosa, é como um filme contemplativo norueguês: uma paisagem, uma reflexão e o tempo escorrendo leeeeeeeeeennnnnnntooooooooo....

quarta-feira, 21 de março de 2007

Sobre política e jardinagem

Sobre política e jardinagem

Rubem Alves

De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.

‘Política’ vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.

Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oases. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia, ‘a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas’.

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.

Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.

Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.

Todas as vocações podem ser transformadas em profissões O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumente o deserto e o sofrimento.

Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: ‘Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade... Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem.’ Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.

Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.

Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?

Acabamos de celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.

Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Sobre todas aquelas coisas que “temos que” fazer

Sobre todas aquelas coisas que “temos que” fazer

Por Sabine Mendes

Professora de Inglês – Colégio Graham Bell

Tudo começou em uma reunião pedagógica de início de ano na qual soubemos que “tínhamos que” começar a nos comunicar mais. Apresenta-se a idéia de ter um blog onde “temos que” começar a postar textos e começar a mostrar nossa cara para o mundo. A experiência de dar aula é rica em si, em qualquer situação, dar aula em um lugar onde me sinto construindo algo para o futuro é mais ainda. Eu tinha que escrever sobre isso porque tínhamos que nos comunicar, tínhamos que conseguir fazer mais coisas práticas e tínhamos que mostrar nossa cara ao mundo. É claro que não é como se alguém tivesse colocado uma faca em meu pescoço sugerindo que eu fizesse isso e acabei pensando que não seria tão ruim, que era uma decisão minha mesmo escrever. Eu tinha que escrever mesmo!

Sentei em frente ao computador depois de uma aula de ginástica (argh !), sentindo os ossos moídos e transformados em pasta para canapés. Tinha que fazer mil outras coisas como: ligar para minha mãe, combinar horários de quem iria ficar com a minha filha enquanto trabalho depois que as aulas começarem, arrumar a casa e terminar de escrever minha dissertação. Porém, entre a dissertação em sua nonagésima quinta versão e um texto novo para o blog, me parecia mais fácil fazer o segundo e como “tinha que fazer”, comecei a pensar em um tema.

Foi quando surgiu aquela sensação. Uma sensação de que eu estava perdendo alguma coisa importante no processo de escrever. Uma sensação de ansiedade e com o peso de todas as outras coisas que a gente costuma achar que “tem que” ser: excelente mãe, professora, cozinheira, poeta, entre outros. Lembrei de que várias vezes o que eu “tinha que” ser ou fazer atrapalhava o que eu estava fazendo. Não dá pra sentir prazer se a gente começa a pensar no que “tem que”. Então, relaxei, dei uma volta (pela minha casa, busquei algo pra beber) e comecei a pensar nas minhas aulas.

Às vezes, eu entro em sala com uma idéia, um planejamento e confiança na proposta que estou seguindo. Nesses dias “iluminados” minha aula flui de um jeito incrível, parece que o universo conspira (por universo quero dizer alunos e tempos de 50 minutos! rsrsrsrs). Nesses dias subo as escadas da escola com a sensação de que é ótimo estar com meus alunos, descobrir coisas novas com eles e que ensinar só tem sentido se aprendemos alguma coisa enquanto ensinamos (coisa em que acredito há alguns anos!). De alguma maneira, estou aberta a todas as possibilidades e não consigo entender ensinar sem aprender. São meus melhores dias!

Outras vezes eu entro em sala com tudo que “tenho que” fazer. Tenho que cumprir a matéria, o programa, tenho que mostrar a importância de minha disciplina, tenho que mantê-los interessados, tenho que fazer muitas coisas.... Em geral, coisas burocráticas. E aí nada funciona. Não consigo fazer nada do que tanto tinha que fazer. Em dias piores, estou em sala pensando em coisas que tenho que fazer fora dela e em dias piores ainda estou em sala pensando em coisas que tenho que ser.

Tudo bem, tudo bem! Os acordos e a matéria são importantes (não estou dizendo que não são), mas eles fluem muito melhor quando não fazem parte desse grupo de coisas que tenho que fazer. Quando consigo dar a eles um tom de novo, porque, de alguma maneira eles não são o mais importante de minha aula.

Aí eu descobri duas coisas muito importantes: que eu preciso sempre reinventar o que faço e estar fazendo o que estou fazendo – estar ali, presente, curtindo aquele momento. E descobri, em segundo lugar, que faço muitas coisas da minha vida porque “tenho que”. Como a gente não deixa os hábitos de uma hora pra outra resolvi duas coisas: 1ª tenho que buscar formas cada vez melhores de ter prazer no que eu faço e 2ª, tenho que aprender alguma coisa em toda aula que eu der (seja aprender algo sobre meus alunos ou sobre a própria matéria, com um olhar de pesquisador constante que ajuda a me colocar no presente e esquecer dos muitos “tenho que”).

Suspeito que se eu tiver prazer, meus alunos também terão (de alguma estranha maneira) e que se eu me colocar aprendendo, meus alunos também aprenderão alguma coisa. Afinal, nunca devemos subestimar o modelo forte que um professor é para um aluno em sala e, se eu estiver burocrática e chateada, é esse modelo de ser humano que estou transmitindo de alguma maneira.

Veremos logo se isso faz sentido! Ainda não consegui chegar ao estado zen de abandonar os “tenho que” e acho que uma dose moderada deles talvez não seja de todo ruim. Pelo menos, quero tentar “Ter que” fazer coisas cada vez mais legais, prazeirosas e desafiadoras.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

As profissões invisíveis

Há algum tempo saiu uma reportagem numa dessas revistas semanais, contando sobre a experiência de um psicólogo, estudante de mestrado na USP.

Durante um bom tempo, não lembro exatamente quanto, ele se vestia de gari e ficava varrendo o campus universitário. A experiência serviu de pesquisa para a sua dissertação, que pretendia discorrer sobre as “profissões invisíveis”*.

O estudante ficou entre assustado e deprimido, porque seus colegas e professores passavam por ele e sequer o cumprimentavam, não o reconheciam naquele uniforme, simplesmente porque não percebiam a sua presença.

O professor da Universidade Federal de Sergipe, Doutor Marcus Eugênio, em recente entrevista aos jornalistas Paloma Abdallah e Wellington Nogueira, diz que existem basicamente duas teorias para explicar as causas da invisibilidade social.

A primeira explica a invisibilidade a partir da percepção dos indivíduos. As pessoas estariam tão familiarizadas com o ambiente, que ele não produziria qualquer tipo de estímulo nelas. Assim, como um pedinte já faz parte da paisagem do centro das grandes cidades, muitas vezes passamos por eles e não nos damos conta. Segundo ainda o mesmo professor, a outra teoria utilizada pela Psicologia é a da banalização. Essa tem a ver com a despersonalização dos indivíduos. Muito utilizada no exercício de certas profissões, como por exemplo, os médicos, quando tratam seus pacientes pelo número do quarto em que estão internados ou pela doença de que o paciente é portador. Ou, ainda, quando os professores “conhecem” seus alunos pelo número da ficha de chamada.

Trouxe essa discussão para os meus alunos – turma de adultos que já trabalham na área das Telecomunicações – e que, pressionados pelas firmas, vêm buscar o curso técnico. E foi uma discussão muito rica, com tristes constatações, na medida em que eles se perceberam como parte desse grupo de profissionais “invisíveis” todo o tempo, porque trabalham nas ruas, pendurados nos postes, ou enfiados nos subterrâneos das cidades.

Muitas outras profissões e outras tantas ocupações trazem a marca da invisibilidade. E são, na maioria da vezes, praticadas por quem nos assegura limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação. São os lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais.

O que não nos causa orgulho algum é a confirmação de que a invisibilidade social atinge todas as profissões que na, escala social, são consideradas inferiores.

São pessoas que trabalham diariamente, têm responsabilidades e, no entanto, só o que se enxerga é o que está fora delas, é o que elas produzem, é o serviço que elas prestam. E, só as olhamos, se ficarmos insatisfeitos com a qualidade do serviço oferecido.

O ser humano tem que vir em primeiro lugar, sempre. Não dá mais para ficarmos errando tanto...


*Seu estudo deu origem ao livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”. E seu nome é Fernando Braga da Costa.


Denise Vilardo

O mais difícil mesmo é ensinar a desler...

De uns tempos pra cá tenho me dedicado a trabalhar com alunos e professores a partir da desconstrução de determinadas “verdades”, tentando ultrapassar o excessivo senso comum que tomou conta do cotidiano das pessoas.

Esse tem sido o maior dos desafios.

Na Educação, temos como proposta maior, desde a década de 70, “tornar o aluno um cidadão consciente e crítico”.

Mas como é que se faz isso? Qual curso de Formação de Professores ensina a ensinar a formar cidadãos conscientes e críticos?

O que temos é algo bastante longe disso. São gerações sendo formadas dentro de algumas formatações curriculares, onde o conteúdo é o que é, porque é o que tem que ser dado... por causa do vestibular... (e aí a escola se distancia mais ainda do seu objetivo principal, se confundindo com cursinhos preparatórios – mas isso é outra história).

Se no Ensino Fundamental e Médio essa é a configuração que temos, a Academia também não se distancia muito disso. Estão aí as diferentes graduações, preparando para os concursos públicos... E, pior, cursos das diversas licenciaturas, onde teoricamente são formados os professores, também parecem não se preocupar muito com o ensinar a ensinar a pensar. Os alunos-mestres têm que se submeter às determinações – nem sempre coerentes – de seus orientadores e das próprias instituições – e, na maioria das vezes, são obrigados a se adequar, porque senão, não conseguem se formar. Decididamente, a Universidade, hoje, não é o melhor lugar para pensar... (mas isso também é outra história).

É evidente que essa situação não foi construída de uma hora para outra, que é fruto de anos e anos de descaso para com o que realmente acontece dentro das salas de aula e com a formação docente, e que ela apenas reflete a falta de expectativa (ou, pelo menos, a pobreza de expectativas) que é oferecida em termos de inserção no mercado de trabalho produtivo.

E aí, a escola permanece repetindo modelos, repetindo, se repetindo incansavelmente. Reproduzindo o que era verdade no século XIX, inclusive no que diz respeito às condições físicas.

Carlos Drummond de Andrade, certa vez, questionou:

“Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? (...) A escola enche o menino de Matemática, de Geografia, de Linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da Matemática, da Geografia, da Linguagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento do mundo.”

Diante desse quadro, o desafio dos educadores é ainda maior, porque remete a algo bastante subjetivo, que é o que chamamos de “visão de mundo”. Porque não significa apenas o compromisso com a discussão das diferentes “visões de mundo”, é mais que isso. É discutir filosófica e ideologicamente tudo o que ocorre. É o educador rever continuamente o seu fazer, é desconstruir as “verdades” a que me referi no início, é duvidar de tudo, é entender a provisoriedade da próprio conhecimento. Não mais receber as informações e o conhecimento como coisas prontas e acabadas, mas acreditar na potencialidade do que está sendo pensado agora, no vir-a-ser. É, principalmente, arriscar. E arriscar-se.

Na prática, isso significa ensinar os alunos a “lerem nas entrelinhas”, a perceberem a intencionalidade de uma ironia, a questionarem o sentido de cada conteúdo trabalhado, a se entenderem como também produtores de conhecimento.

Mas... o professor tem que saber fazer isso... ele tem que aprender a pensar. Ele tem que aprender a ensinar a pensar. Ele tem que aprender a ensinar a desler...

Nesse momento, creio que estamos diante de uma excelente oportunidade de investirmos na educação de educadores. A chegada das “pequenas máquinas” - como costumo chamar os laptops do Projeto “One Laptop per Child” - será uma ocasião mais que favorável para essa aplicação de recursos e de esforços. A preparação dos educadores para lidarem com as máquinas é imperiosa! E temos que ir além. Preparar os educadores para formar os tais cidadãos conscientes e críticos continua na ordem do dia.

Ah, já ia esquecendo... só recuperaremos o ser poético de cada criança, quando os professores se perceberem como pessoas ainda capazes de viverem o estranhamento que é o ser da poesia.

Denise Vilardo