segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O AVESSO

Em seu livro: Estórias de quem gosta de ensinar, Rubem Alves disse:

"Umberto Eco sugeriu que se criasse uma Faculdade de Irrelevâncias Alternativas. Acho que os professores universitários não o levaram a sério, pensaram que se tratava de uma piada, pois estão por demais enrolados em suas "irrelevâncias oficiais" para acreditar que algo possa existir fora delas. Lichtenberg fez proposta semelhante há dois séculos. Disse ele: "Num momento em que só se pensa em construir universidades para espalhar o novo saber, eu sonho com o dia em que se construirão universidades para ensinar a antiga ignorância".

Junto-me aos dois com a sugestão de que se crie uma Faculdade do Avesso. Se há Faculdades de Direito, que estudam as leis que regem a sociedade normal, é lógico e necessário que haja Faculdades do Avesso, dedicadas a estudar aquilo que se veria se o tapete estivesse virado ao contrário. Como nos ensina o Tao Te Ching, é preciso que haja o Avesso para que o Direito possa existir. Já pensaram num tapete sem avesso? Até Deus tem o seu avesso, que é o Diabo.

Acontece que esses olhos que temos na cara, muito bem explicados naqueles quadros que os oftalmologistas penduram em salas de espera, só conseguem ver o lado direito das coisas. Por isso dizia o Alberto Caeiro que não basta ter olhos para ver as coisas. Os zen budistas falavam na necessidade de que um terceiro olho fosse aberto, e a isso davam o nome de satori. O poeta Cummings diz a mesma coisa, e falava na abertura do olho que mora dentro dos olhos.

Gente que vê o avesso é o Paulo, dono da Floríssima, floricultura linda, que visito sempre sem precisar comprar, por puro prazer. Gosto de ver as bonsais. Bonsais, você deve saber, são aquelas miniaturas de árvores japonesas. Eu as acho lindas. Penso com enorme ternura no homem que planta a arvorezinha, sabendo que ela só vai atingir a sua plenitude quando ele estiver morto. E é uma alegria poder ter uma árvore dentro da sala, quando se mora num lugarzinho minúsculo. Eu tinha uma bonsai maravilhosa, de 20 anos, que um amigo me deu. O jardineiro, não sabendo das delicadezas da velha arvorezinha, afofou a terra e pôs adubo estranho nela. Ela levou um susto tão grande que faleceu de enfarte fulminante. Sofri e resolvi que não a jogaria fora. Jogar fora seria o Direito da situação. Optei pelo Avesso. Tirei a terra do vaso, enchi de cimento, cobri com minúsculas pedrinhas, e envernizei o tronco morto. E lá está a bonsai, tranformada em escultura.

Mas eu tinha um grilo com elas: os métodos usados para produzi-las se pareciam demais com os métodos que usamos para educar as crianças; a poda das raízes, pois a árvore não pode crescer; a poda dos galhos para que a árvore fique do jeito que queremos e não do jeito que ela quer; e o entortamento do tronco, por meio de arames: é de pequenino que se entorta o pepino...

Mas foi vendo as bonsais do Paulo da Floríssima que aprendi que as bonsais também podem ser vistas pelo avesso. "Esta aqui", e ele me apontava para uma bonsai de figueira, a planta colocada sobre uma pedra, as raízes à mostra deslizando em busca da terra, "eu achei quase invisível, espremida, crescendo numa fresta de árvore. Esta outra" - e me apontava para uma schefleria - "encontrei misturada com tijolos e telhas numa caçamba de entulho. Aquela outra, coqueirinho, estava esperando a morte, toda queimada por excesso de torta de mamona, na casa de um amigo. E a strelizia foi separada de um lote de mudas para ser jogada fora, por ser muito raquítica..."

Lá estão elas - lindas, tiradas do refugo e transformadas em beleza, pela arte dos olhos e das mãos de quem vê o Avesso.

Lembrei-me então do Gramanni, de quem tenho a felicidade de ser amigo. Dizem que ele é músico. Protesto e discordo: o Gramanni não é músico: ele é música. Tudo aquilo que ele toca vira melodia, e o prazer dele é tocar rabeca. O dicionário diz que rabeca é o nome antigo para o violino. Mas hoje rabeca é nome de um violino rústico, feito por artesão da roça, apresentando-se freqüentemente nu, sem as roupas do verniz. Violino é coisa fina, que combina com sobrecasaca e gravata borboleta. Rabeca, ao contrário, combina com botina e bolo de fubá. A rabeca é a prima caipira do cosmopolita violino. Pois o Gramanni gosta é das rabecas sem pedigree e sem nome. Mas basta que ele as pegue para que elas comecem a produzir beleza. Já o vi mesmo tocando numa rabeca que os que só vêem pelo direito jamais imaginariam que fosse capaz de fazer música. (...)

Mas do Avesso, tudo fica diferente, e a gente aprende do Paulo e do Gramanni que o Avesso é o lugar onde a beleza mora, escondia. (...) ".