terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Educação se faz com o corpo inteiro

"Falta à escola abordar o sentido da existência"
Frei Betto

Nunca se falou tanto na necessidade de uma escola plural, interdisciplinar, multicultural, holística. Uma escola que cuide da formação de um “ser integral”.

E, se até há alguns anos, essa necessidade era apontada pelos estudiosos da Educação numa concepção totalizante do processo educacional, baseada na não-fragmentação do conhecimento e no entendimento de que os seres humanos não são formados apenas de cognição, hoje é também uma exigência do mercado de trabalho. Algumas empresas, atualmente, no seu processo seletivo, pretendem averiguar, inclusive, a capacidade de sustentação emocional dos candidatos, além do seu potencial para trabalhar em equipe, dentre outras atitudes.

Mas, paradoxalmente, e por mais que estejamos vivenciando essa realidade, a escola – filha direta e dileta da tradição cartesiana – só se preocupa com a quantidade de informações que consegue passar (passar sim, e não construir). Ela continua se restringindo apenas à transmissão do patrimônio universalmente constituído, ignorando a reflexão sobre o contexto em que vivemos e pouco se importando com o potencial de modificação da realidade.

Essa idéia me faz lembrar de uma história infantil, de Ruth Rocha, chamada “Quando a escola é de vidro”, que começa assim:

“Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito. Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes... Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chagava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É, no vidro! Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava. Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho. Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo á medida em que você ia passando de ano. Se não passasse de ano era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou não coubesse. Aliás nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros. E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.”

Ao dicotomizar o sentido da aprendizagem, do sentido da existência, a escola separa o espaço do conhecimento do espaço da vida, dificultando a reflexão sobre o cotidiano. Como se o aumento da violência urbana não tivesse nada a ver com as políticas salariais, sociais e outros ais; como se a poluição do meio ambiente não tivesse nada a ver com interesses econômicos inconfessáveis.

Vivi uma experiência que exemplifica bem essa questão: fui chamada para dar aula particular para um aluno de 15 anos, que estava cursando, na época, a sétima série de um colégio da classe alta do Rio de Janeiro. Ele era redator-chefe do jornalzinho do colégio e estava, ironicamente, com notas péssimas em Língua Portuguesa. Ah, ele também tinha uma banda de rock, onde era baterista. No nosso primeiro encontro, pedi que ele me falasse um pouco de sua experiência de músico. Em seguida, pedi que escrevesse sobre esse fato. Imediatamente e, diga-se, com muita rapidez e fluência, escreveu um ótimo texto de duas páginas. Li tudo e propus que começássemos a analisar o primeiro período do seu texto. Ele me olhou, muito surpreso, sem entender exatamente o que eu pedia que fizesse, e comecei a explicar, dizendo que iríamos verificar, naquele parágrafo, quais elementos da estrutura sintática estavam presentes, tais como: sujeito, predicado, adjuntos, tipos de verbos etc. Ao que ele, absolutamente surpreendido, me perguntou: e quando eu escrevo tem isso?! Ou seja, para ele, o conteúdo da disciplina Língua Portuguesa não tinha a menor relação com o que ele falava ou escrevia. Isso é assustador! Não se tratava de um aluno desinformado, muito pelo contrário, tanto era atento ao mundo e competente na desenvoltura com a Língua, que escrevia regularmente no jornal do colégio. Mas, vivia massacrado pelas “orações subordinadas substantivas objetivas diretas”, que não faziam o menor sentido para ele.

Continuamos educando para a competitividade e para o sucesso. Para o “tem que dar certo, sempre, a qualquer custo”. Permanecemos ignorando as questões fundamentais dos seres humanos, como se os medos, frustrações, fracassos, morte não fizessem parte da vida dos nossos alunos. E, diante dessas situações, a instituição se cala e finge que elas não acontecem.

Um amigo meu sempre diz que, se não fôssemos perder todos os alunos do colégio que, juntos, coordenamos, deveríamos colocar uma faixa na frente do prédio, onde se leria: “Aqui preparamos para o fracasso”. Porque, fundamentalmente, nosso compromisso é com o ser humano. E se conseguirmos ajudar a formar o caráter e a personalidade dos nossos alunos para lidar com as adversidades da vida, estaremos cumprindo, inequivocamente, o nosso papel.

A escola continua distante do mundo e, pior, distante, dos próprios seres que a constituem.

Mais do que nunca, é preciso re-humanizar essa instituição formadora de homens e mulheres. Precisamos de pessoas sabidas, mas precisamos, fundamentalmente, de pessoas dignas, com boa formação de caráter, éticas e solidárias. É preciso socializar valores de justiça e respeito.

Talvez seja necessário lembrar que o ato de ensinar, supõe refazermos o caminho que nos trouxe até um determinado conhecimento. Talvez seja bom lembrar, também, que o sentido etimológico da palavra pedagogo é aquele que conduz, o guia, o mestre. E aí teremos aquele que retoma um caminho já percorrido, ampliando o já conhecido e formando novas concepções.

O ser humano já sabe do que é capaz de realizar. Só está faltando fazer melhor.

Denise Vilardo

Um comentário:

Rosangela Gomes disse...

Ufa!!!
Este texto é de tirar o fôlego.
Vou complementá-lo acrescentando o que ouvi, certa vez, de um aluno, e que era mais ou menos isso:
"Tudo aquilo que está diante de nós ou atrás de nós, pouco importa se comparado com o que está dentro. Quando conseguimos tirar o que temos de melhor de dentro da gente e colocamos no mundo, milagres acontecem."
(Jésio - aluno de aproximadamente 25 anos, da Educação de Jovens e Adultos, ao concluir a 4ª série)
Não seria este o real sentido da educação? Não será isso que espera o mercado de trabalho: pessoas capazes de descobrirem suas potencialidade e de jogá-las no mundo?
Por que, então, teimamos em trabalhar muito mais com o que está atrás (passado), visando o que está adiante (um futuro que absolutamente não podemos prever) dando tão pouca atenção ao que está dentro???